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Maria Beltrão lança o livro ‘O Amor Não se Isola’, escrito durante a quarentena

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Quando o Brasil começou a sentir os reflexos da pandemia provocada pelo novo coronavírus, com o início também do necessário isolamento social, vários pontos de interrogação quanto ao futuro passaram a povoar a mente de Maria Beltrão, a carismática apresentadora do programa “Estúdio I”, da GloboNews – claro, como o de todas as pessoas do planeta que não observavam a situação sem a devida preocupação. E os dias foram se prorrogando, em meio a notícias tristes e a incerteza quanto a uma data para o fim do pesadelo. Certo dia, vendo a esposa e a filha dela, Ana, um tanto quanto desalentadas, Luciano, marido da jornalista, decidiu lançar um desafio às duas: que aderissem ao hábito do morning pages, divulgado mundo afora por Julia Cameron, poeta, dramaturga, romancista, cineasta e jornalista norte-americana. Consiste basicamente na seguinte prática: escrever diariamente, em três páginas, tudo aquilo que vem à cabeça, numa torrente, sem freios, filtros e podas. Como o nome em inglês indica, pela manhã. Mas nada impede que seja em outro horário.

“No início, a Ana topou de pronto”, conta a simpática Maria, referindo-se à filha. “Quanto a mim, de cara, falei: ‘De jeito algum’ (risos). Mas depois acabei refletindo e vi que estava sentindo, sim, uma certa necessidade de colocar algumas coisas pra fora, de fazer essa catarse. Aceitei o desafio também para destravar a criatividade. Agora, se eu soubesse que, ali, estava começando a escrever um livro, acho que não faria (pois, daí, poderia se sentir intimidada)”, diz ela, referindo-se a “O Amor Não se Isola – Um Diário com Histórias, Reflexões e Algumas Confidências’’ (Editora Máquina de Livros, R$ 42), lançado em outubro. Fruto, portanto, dessa iniciativa à qual de início ela foi reticente. “A Julia  Cameron defende a escrita à mão. Mas a pessoa tem que despejar (o que vem à mente) e, depois, não pode voltar atrás, apagar, editar”, pontua ela, ressaltando apenas que não é muito fã de estrangeirismos (referindo-se a como se tornou conhecido o exercício mesmo no Brasil). 

Naquele período inicial, Maria Beltrão começou a discorrer sobre os livros que estava lendo. “Comecei falando das minhas coisinhas. Mas a realidade começou a se impor, como a morte do Aldir Blanc (o célebre letrista faleceu em maio deste ano, vítima da Covid-19)”.  Na página 37 da obra, ela fala sobre a perda, citando que uma das primeiras músicas que aprendeu ao violão foi justamente “De Frente para o Crime”, assim como gostava de, em frente ao espelho, imitar Elis Regina cantando “Dois pra Lá, Dois, pra Cá”.

E foi quando escreveu um texto sobre João Ubaldo Ribeiro que o fator destino entrou em cena. “Por coincidência, uma amiga minha citou o nome dele, e eu disse que tinha escrito um texto sobre o escritor. Mostrei para ela, que leu e disse: ‘Mas isso é uma crônica. Porque você não mostra para alguma editora?’ Pensei: ‘Será?'”. Decidiu, então, mostrar os textos para o seu colega, Octavio Guedes. “Falei com ele: ‘Olha, vou te mandar uns textos que eu venho escrevendo, para você avaliar se cabe ou não, se são histórias muito íntimas que não interessaria a ninguém – porque eu falo do meu mundinho, da minha fé, essas coisinhas”.  Guedes deu o empurrão final, e pronto, lá foi ela disposta a concluir a empreitada. “Naquele ponto,  já tinha 70% do livro escrito, e consegui terminar. Como escrevi à caneta, com aquele garranchão, coisa horrorosa, minha para minha prima me ajudar. Tinha horas em que me flagrei pensando: ‘Aqui, estou escrevendo muito mal’, mas eu não podia cair na tentação de consertar, de tentar deixar mais bonitinho, para não tirar a naturalidade de um diário. Só mexi se a abordagem estivesse truncada, se percebesse que o leitor não iria entender, mas, neste ponto, os editores tiveram uma super sacada (gráfica), que foi puxar setinhas (na margem da página) para um esclarecimento. Achei tão interessante, essa ideia, porque aproxima mais o leitor E outra coisa legal, eles mostraram minha letra (na data), também para dar esse caráter de diário”.

Uma curiosidade é que, no dia 17 de maio, ela chegou a escrever a data no seu diário, mas não conseguiu escrever nada. Deixou, então, apenas algumas reticências. “E algumas pessoas acabaram preenchendo essa página com histórias delas, enquanto outras perguntavam o que eu quis dizer”, narra a jornalista.  “Incrível, foi uma das páginas mais comentadas”.

Ela conta que outro capítulo que gerou uma boa repercussão foi “De Pertou ou Isolado, Ninguém é Normal”, nascido de posts do Twitter, a partir dos quais ela tenta entender o que estava se passando em sua cabeça. Assim, no diário, após a reprodução de cada post, ela mesma se dá o “diagnóstico”. “Foi a escrita do dia 15 de julho. Eu estava preocupada com questões como a balança. É bem levezinho, e acho que engraçado”. Neste dia, ela fala da vista cansada, de ser do tempo do disque-amizade e do “Boa noite, John Boy” (o célebre personagem interpretado por Richard Thomas, na série “Os Waltons”, sucesso na televisão brasileira).

Ao fim, no capítulo, ela reconhece que está nostálgica. “Estou olhando muito pelo retrovisor. E o mais legal: estou celebrando muito o que vejo”, assinala. Ao mesmo tempo, é por ali que Maria Beltrão decide não ficar aprisionada às três páginas por dia. “Depois de tanto isolamento social, não quero ser confinada também aqui”, avisa, ao diário.

No mais, Maria Beltrão conta como se aventurou a ler Joyce, a saída de Babu, do “BBB”; o amor pela enteada, Bia, a quem sua filha se considera irmã; a saudades da sogra e da mãe, a TPM, o apreço por amigos como Christiane Pelajo (também apresentadora da GloboNews, e que assina a orelha do livro) e Arthur Xexéo, da confissão um dia feita a Leo Jayme, o pensamento no que pai, Hélio Beltrão (1916-1997, e que, todo mundo sabe, foi ministro do Planejamento e presidente da Petrobras) estaria pensando sobre os dias atuais; o tio Milton e muitas coisas mais… Muitas vezes ao som de Kid Abelha, Gilliard, Caetano, Gil, Jimmy Cliff ou do Queen, interpretado pela Orquestra Petrobras Sinfônica, na experiência (nova) de um drive-in, no qual buzinadas fazem as vezes de aplausos.

Vale dizer que, mesmo com o livro pronto, já na gráfica, Maria Beltrão não abriu mão de retomar o exercício. “Na verdade, recomecei hoje (dia da entrevista). Senti esse afã de novo”, revela. Sobre a pandemia, de um modo geral, ela conta que tenta se concentrar no melhor, “o que talvez não vire notícia”. “É da minha característica. (O dramaturgo) Ariano Suassuna dizia que o pessimista é um chato, e o otimista, o tolo. Brinco que sou uma tola otimista e uma realista esperançosa. Mas temos visto, até aqui, uma explosão de solidariedade para todos os lados. E o que a gente faz de pequeno ou de grande tem efeito, pode ser contagiante e contagioso. O mal que você faz é contagioso, o bem, é contagiante. O livro, aliás, termina com a narrativa do dia em que revi minha mãe, minha irmã, a possibilidade de rever o Tio Milton… A gente sabe que ainda tem muita coisa pela frente, mas, como escrevi, me sinto revigorada com a ‘vacina afetiva’ – esta, já ao alcance de todos nós”, conclui ela, citando o nome do capítulo final. Afinal, o amor não se isola, não é verdade?

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Redação A Voz do Povo Do Oeste

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