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Feminista que ‘jantou machões do Pasquim’, Rose Marie Muraro volta à livraria

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 Em 1971, Rose Marie Muraro topou ser entrevistada pelo Pasquim. Interrompida a toda hora, pedia várias vezes para para concluir seus pensamentos. A bancada 100% masculina do semanário não deixou barato.

Glauber Rocha disse “você esta no meio de homens e esta querendo tirar uma de homem muito grande, é melhor você ficar como mulher que a coisa vai melhor”.

Paulo Francis disse “essa sua ansia de ordem revela no fundo, no fundo que voce gostaria de uma sociedade hierarquizada, com categorias definidas, com disciplina, com um pai autoritário e um marido dominador”.
Flávio Rangel perguntou “a Betty Friedan [famosa feminista americana] virou machona mesmo?”. “A filha dela é bonitinha?”

“Lá estavam Glauber Rocha, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo e toda a patota”, Muraro lembrou a conversa duas décadas depois, no autobiográfico “Os Seis Meses em que Fui Homem”. “Foi só aí que percebi o que o feminismo realmente significava para os homens da época. Tenho certeza de que os ‘jantei’, porque eles não sabiam nada das articulações da opressão das mulheres com o econômico. Só pensavam no medo que as novas mulheres lhes causavam.”

A capa daquele Pasquim resumiu a conversa com a chamada “o machão já era!”, arrematando com “líder feminista bota pra quebrar”.

Sem nunca deixar de botar para quebrar, Muraro fundou a primeira editora feminista do país em 1990, a Rosa dos Tempos. Já era septuagenária quando ganhou do Congresso o título de Patrona do Feminismo Brasileiro e lançou títulos como “Educando Meninos e Meninas para um Mundo Novo”. Morreu há seis anos, quando ainda ganhavam tração as guerras culturais que reacenderam discussões sobre gênero e machismo.

Ela completaria 90 anos no mês passado. Para celebrar a data, a Record, que desde 2017 tem a Rosa dos Tempos como um selo da casa, relança “Os Seis Meses”, que Muraro escreveu 30 anos atrás para contar sua experiência navegando por um universo até hoje superpovoado por homens, a política. Ela tentou se eleger deputada federal duas vezes, uma em 1986, pelo PDT, e outra em 1994, pelo PT.

Até adoeceu no processo. Em suas palavras, “eu peguei um belo câncer”. “Acho que perdi minha imunidade física naquele ano de 1986, 1987, porque aquele mundo era e é muito brochante.”

A Record já repôs no mercado várias obras que Muraro editou, como “O Martelo das Feiticeiras”, um manual para caçar bruxas escrito por dois inquisidores no século 15, e “Eunucos pelo Reino de Deus”, no qual a teóloga Uta Ranke-Heinemann expõe o discurso misógino e homofóbico dentro da Igreja Católica -no capítulo “Minha Grande Decepção”, ela fala sobre o ex-colega de universidade Joseph Ratzinger, que viraria o papa Bento 16.

Tem ainda “A Mística Feminina”, o clássico do feminismo em que Betty Friedan investiga a infelicidade das americanas como donas de casa nos anos 1950. Muraro chegou a ciceronear a ativista no Brasil, e aqui o Pasquim atacou novamente.

“Desculpe, dona Betty, mas nós vamos dar cobertura às furadoras da greve de sexo”, era a frase na capa da edição que trouxe uma entrevista com a feminista. “Ela falou mal dos militares e mandou Millôr Fernandes à merda numa memorável entrevista aos machões do Pasquim”, lembrou Muraro no livro.

A brasileira também disse sobre Friedan que “ela era muito feia e agressiva, e daí em diante passou a fazer parte do inconsciente coletivo brasileiro como o modelo de mulher que as outras, as que quisessem continuar femininas, não deveriam imitar”.

“Chamar a Betty de feia é algo que não imagino sendo escrito hoje por uma mulher com a trajetória da Rose”, diz Livia Vianna, editora-executiva do grupo Record e a responsável por reativar a Rosa dos Tempos. O prefácio da nova edição de “Os Seis Meses” alerta sobre “algumas ideias que mostram como preconceitos de todos os tipos ainda estavam arraigados mesmo nos estratos mais informados da sociedade”, como falar homossexualismo -termo que evoca uma doença- em vez de homossexualidade.

Muraro tinha raízes atípicas para a causa feminista -a religião. No livro, ela conta que não se conformou com ser dona de casa. “Os filhos iam nascendo, e eu ficava cada vez mais frustrada.”

“A primeira saída humana, a que me conectou com o mundo”, narra, veio da fé católica. “Encontrei quando, no início dos anos 1960, se mostrou possível uma esquerda dentro da Igreja.” Nela achou também o homem com quem teria cinco filhos antes de se separerem – um padre.

Trabalhou na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e na editora Vozes, da Igreja Católica, “que entao so publicava livros catolicos confessionais conservadores”, como ela conta. “Levei para lá a producao intelectual da Igreja progressista. Seu desempenho surpreendeu os responsaveis pela editora, os novos livros vendiam como agua.”

Sucesso de vendas, mas também de polêmicas. Acabou demitida da Vozes nos anos 1980, por publicar “Sexualidade, Libertacao e Fe: Por uma Erotica Crista”. O Vaticano afastou Muraro e o teólogo Leonardo Boff, seu amigo. Em 1999, Muraro disse a este jornal que, àquela altura, se considerava “pós-cristã e pós-religiosa”.

Também disse que aderir ao feminismo num país onde mal se falava nisso, para ela, foi intuitivo. “Eu não sabia de nada. Só sabia que Simone de Beauvoir tinha escrito um livro [“O Segundo Sexo”] e ponto. O que eu fiz, fiz sozinha.”

E assim abriu caminho para tantas outras, inclusive em casa. “Descobri o feminismo como ideologia depois dos 20 anos. Aí que fui entender a essência do que gritava em mim”, diz a neta Maiara Muraro, de 30 anos. “Ela foi feminista até o fim porque era parte do caráter dela, não mais uma escolha. Seu último ato feminista para a sociedade foi um livro inédito. Conta a mais plena história de amor que ela viveu, em que não existia mais feminino em disputa com o masculino, e sim um harmônico amor andrógino.”

Sua neta é a gestora do Instituto Cultural Rose Marie Muraro, no bairro da Glória, no centro do Rio de Janeiro. O espaço, que abriga cerca de mil títulos sobre o estudo de gênero, foi fechado há dois anos, em meio a dívidas. Há uma vaquinha para juntar R$ 25 mil para a reabertura.

“Quando comecei me chamaram de prostituta, mal-amada, machona, solteirona”, disse certa vez Muraro, já um ícone do feminismo brasileiro. “Já não sou vista como uma bruxa contra os homens. Hoje, os tapetes vermelhos estão abertos para mim.” Que o instituto que leva seu nome tenha a mesma sorte.

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Redação A Voz do Povo Do Oeste

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